sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Conceito de Angústia - Kierkegaard

"O Conceito de Angústia, portanto, examina principalmente a angústia do nada,
da indeterminação, da liberdade, que toma e assalta o indivíduo no momento da decisão
(do salto qualitativo), quando ele está por escolher entre uma multiplicidade inumerável
de possibilidades e, assim, por fixar-se, por dar-se uma imagem e uma identidade
precisa e concreta, decidindo que coisa fazer de si mesmo (já que ele não é ainda aquilo
que será tão logo tenha feito a escolha), com o risco de realizar-se, mas também de ir ao
encontro de um fracasso, de obter sucesso, mas também de falhar – ou seja, quando ele
está em vias de abandonar a condição edênico-infantil de inocência e ignorância (na
qual o seu espírito ainda está sonhando, e é ainda virtualmente tudo), para lacerar a
originária e não-problemática unidade psicofísica entre corpo e alma, para estabelecer a
síntese entre os elementos contraditórios que o constituem e, assim, para escolher a si
mesmo, tornando-se espírito, indivíduo, Eu".

Søren Kierkegaard: uma fenomenologia da angústia, por Roberto Garaventa

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O escrever, não o escritor


Hoje, ao avaliar o que seria eu me tornar um escritor, pergunto pelo início, de quando tenha começado a escrever. Lembro-me de alguns diários ainda aos sete e oito anos, mas todos estavam na única função de depositar impressões e não se queria leitor algum. A questão é pelo momento em que desejei alguém para ler o que eu fazia e no que consiste este desejo.

Era uma vez a quarta série. Gostava de algumas meninas, e de uma de cabelos compridos e negros mais do que outras. Ela me sorria tanto quanto o fazia para os outros garotos: descobria em si o fascínio e o esbanjava. Não me queria em especial, assim como nenhuma das meninas, tal como deviam pensar todos os colegas uns sobre os outros (hoje eu bem suspeito). Em uma aula, um colega meu levantou a mão e falou muito bem, chegou a citar um livrinho. Notei que a garota tão querida o admirou por isto. Depois deste dia, eu decidi ler.

Este é o ponto de partida de minha história na leitura. E quando eu mesmo passei a produzir histórias? Logo depois, na quinta série, acho. Circulava entre os colegas imitações dos autores que passei a gostar, em papel de caderno e capa de folha especial. Eles gostavam das cenas picantes e de violência. Passei a expandi-las em outros volumes. Até fiz conto de terror para publicar na internet e, como consegui, soube que poderia continuar... Contudo, não consegui nenhuma das meninas.

Passei a ler por conta delas, mas a escrever também? Escrever talvez tenha sido o passo para dizer que não precisava delas. Os meninos afinal eram afirmados no mundo, enaltecidos pelos outros e coroados de auto-estima, pelos feitos de conseguirem meninas. Não era o meu caso, mas não porque não me importava, mas porque não acontecia. Seria preciso me justificar entre as coisas de outra forma. Não trapaceio: lembro bem que os meus sonhos ao escrever era me tornar muito famoso. Não foram poucas as vezes que me deliciei com a ideia de que uma garota se arrependeria de não me ter dado atenção.

Quanto disto dura? Quanto a vontade de ser escritor, rodeada por clamares próprios de Es muss sein, que tudo quer deixar ou rebaixar, carrega as defesas da frustração primeira? Um menino aqui ainda se ressente com o mundo, ao querer seu nome em capas? Pode ser um modo de manter a estima, que nunca se sustenta, pois é sempre a resposta vinda de uma dimensão por não conseguir entrar em outra, na primeira que lhe foi negada... Sim, é preciso debochar da primeira. Não há nada ali, senão a sensação de ser querido, que se pode encontrar onde se quiser mesmo ir.

O gosto pode existir independente do princípio: posso continuar a escrever com este alívio e esta satisfação, mesmo que não seja para me ressentir mais. Sobra o ato, o que cai era a finalidade. Hoje, não entendo em nada o prazer de ser mais do que estas palavras, me resta o escrever e não mais o escritor.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Grande Sertão + Disparada

"Um dia, sem dizer o que a quem, montei a cavalo e saí, a vão, escapado. Arte que eu caçava outra gente, diferente, E marchei duas léguas. O mundo estava vazio. Boi e boi. Boi e boi e campo. Eu tocava seguindo por trilhos de vacas. Atravessei um ribeirão verde, com os umbuzeiros e ingazeiros debruçados - e ali era vau de gado. "Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago..." - foi o que pensei, na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia. O tanto assim, que até um corguinho que defrontei - um riachim à toa de branquinho - olhou pra mim e me disse: - Não... - e eu tive que obedecer a ele. Era para eu não ir mais para diante. O riachinho me tomava a benção. Apeei. O bom da vida é para o cavalo, que vê capim e come. Então, deitei, baixei o chapéu de tapa-cara. Eu vinha tão afogado. Dormi, deitado num pelego. Quando a gente dorme, vira de tudo: vira pedras, vira flor. O que sinto, e esforço em dizer ao senhor, repondo minhas lembranças, não consigo; por tanto é que refiro tudo nestas fantasias. Mas eu estava dormindo era para reconfirmar minha sorte. Hoje, sei. E sei que em cada virada de campo, e debaixo de sombra de cada árvore, está dia e noite um diabo, que não dá movimento, tomando conta. Um que é o romãozinho, é um diabo menino, que corre adiante da gente, alumiando com lanterninha, em o meio certo do sono. Dormi, nos ventos. Quando acordei, não cri: tudo que é bonito é absurdo - Deus estável" (grande sertão: veredas). 


https://www.youtube.com/watch?v=jpGm5aDZIAk

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Trecho de O Mito de Sísifo - o comediante e o homem absurdo

"O que   importa"   diz   Nietzsche   "não   é   vida   eterna,   é   a   eterna vivacidade". Todo o drama está realmente nessa escolha. [A atriz] Adriana  Lecouvreur,  em  seu  leito  de  morte,  consentiu  em  se confessar  e  comungar,  mas  se  recusou  a  abjurar  sua  profissão. Perdeu,  por  isso,  o  benefício  confessional.  O  que  era  isso  pois, realmente,  senão  tomar  contra  Deus  o  partido  de  sua  profunda paixão?  E  essa  mulher  em  agonia,  recusando  entre  lágrimas renegar o que chamava sua arte provava uma grandeza que jamais atingira diante da ribalta. Foi seu mais belo papel, e o mais difícil de desempenhar.  Escolher  entre  o  céu  e  uma  irrisória  fidelidade,  se preferir  à  eternidade  ou  a  se  submergir  em  Deus  é  a  tragédia secular em que é preciso tomar parte.

Os comediantes da época se sabiam excomungados. Ingressar na profissão  era  escolher  o  Inferno.  E  a  Igreja  distinguia  neles  seus piores  inimigos.  Alguns  literatos  se  indignam:  "Imagine,  recusar  a Molière  os  últimos  socorros!"  Mas  isso  era  justo  para  aquele  que morreu em cena e encerrou sob a pintura do rosto uma vida inteira devotada  à  dispersão.  Invoca-se  a  seu  respeito  o  gênio  que dispensa tudo. Mas o gênio não dispensa nada, exatamente porque se recusa a isso.

O  ator  sabia,  então,  que  punição  lhe  estava  reservada.  Mas  que sentido podiam ter tão vagas ameaças diante do último castigo que a   vida   lhe   preparava?   Era   esse   que   ele   antecipadamente experimentava,  e  aceitava  por  inteiro.  Para  o  ator,  como  para  o homem  absurdo,  uma  morte  prematura  é  irreparável.  Nada  pode compensar a soma dos rostos e dos séculos que ele, sem isso, teria percorrido.  Mas,  seja  como  for,  se  trata  de  morrer.  Porque  o  ator está sem dúvida em toda parte, mas o tempo também o acorrenta e exerce sobre ele seu efeito.

Basta então um pouco de imaginação para sentir o que significa um destino  de  ator.  É  no  tempo  que  ele  compõe  e  enumera  seus personagens.  É  também  no  tempo  que  aprende  a  dominá-los. Quanto  mais  vidas  diferentes  ele  viveu,  melhor  se  separa  delas. Chega o tempo em que é preciso morrer no palco e no mundo. O que ele viveu está diante dele. Vê com clareza. Sente o que essa aventura  tem  de  dilacerante  e  de  insubstituível.  Ele  sabe  e  pode, agora, morrer. Há casas de repouso para velhos comediantes


Albert Camus, em O Mito de Sísifo

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Abertura do campo do possível: política e movimento

Publico este texto para me contrapor à ideia de que a ausência de objetivos em um movimento político seja necessariamente ruim. O caso é se entendemos política apenas como práticas e relações institucionalizadas, e não tomamos também como um comprometimento coletivo em ampliar as suas próprias possibilidades. Assim, um movimento de eclosão, como foi o tão historicamente admirado Maio de 68, em outras proporções, pode ser uma abertura para algo novo. 

                                                                       *  *  *


            No dia 6 de Maio de 1968, em Paris, dez mil estudantes entram em choque com a polícia, para evitar o fechamento temporário da Universidade de Sourbonne. A medida repressiva vinha diretamente do governo francês, que tentava bloquear as ações de protesto dentro do campus. Os universitários bradavam a favor de mudanças radicais e, quatro dias depois, duplicaram o seu número para novo embate. A Noite das Barricadas foi inserida na história com bombas de fumaça, incêndios, correrias e pedras em arremesso contra capacetes. Era o estopim do que culminaria ainda em uma greve geral por todo o país, com aderência de operários e jovens trabalhadores.
            Os episódios do “Maio de 68”, assim contados, poderiam somar-se, com algumas novidades, aos inúmeros acontecimentos de insurreição e protesto, seja na Europa ou em qualquer continente. O seu cenário possui os elementos necessários e reinseridos: enfrentamento, protesto, resistência, gritos e suspensão da rotina de todo um território. Faltou apenas um, aquele que justamente ampliou a estranheza do movimento francês e provocou por fim um ineditismo que até hoje é engradecido como um marco: a ausência de um ponto definitivo contra o que se rebelava. “Para mim, militante revolucionário, era algo incompreensível: era de fato uma brincadeira, uma vontade de fazer qualquer coisa (...)”, declarou o anarquista Maurice Jouyex, em uma das entrevistas organizadas por Heyk Pimenta e Sergio Cohn no livro Maio de 68, na Série Encontros. Edgar Morin (2008, p. 30), em um artigo de comemoração aos dez anos do evento, inquire: “Maio de 68 tem uma outra dimensão, uma dimensão infra ou supra política e que escapa às categorias das análises clássicas”.
            Não havia nenhuma frente de participação partidária, ou mesmo um programa definido com propostas para alterações de leis ou estatutos. O desejo era por uma vida mais legítima, melhor vivida e desimpedida de tabus ou opressões. Nos muros, pichavam-se frases como “A imaginação no poder” ou “É proibido proibir”, nas ruas se filmavam pequenos documentários com perguntas diretas aos cidadãos, tais quais “você é feliz?” ou “o que é o amor?”. Eram reverberações das frentes que inflavam a juventude de todo o mundo, tais como o ideal de pacificação dos hippies, a expansão de consciência através de interferências psicotrópicas e de ritos em religiões alternativas, a luta prática por utopias sociais, o rock’n’roll, o cinema, a poesia libertária dos beatniks junto ao seu toque de ordem “on the road".
             O que todos eles traziam, em maneiras distintas, que se simbolizou no acontecimento da juventude parisiense, era uma vontade de reinaugurar o mundo dos moldes arregimentados e compor novas relações de convívio. O principal questionamento que se lhes deparava tem as mesmas palavras do jornal Spiegel, em um entrevista com Rudi Dutschke, um dos principais líderes do movimento estudantil na Alemanha de 1968: “Por que o senhor não entra em um partido para efetuar transformações?”. Daniel Cohn-Bendit, marco do Maio em Paris, responde à mesma questão em outra entrevista:
Todo mundo se tranquilizaria (...) se fundássemos um partido anunciando: “Toda essa gente está conosco. Aqui estão os nossos objetivos e o modo como pensamos alcançá-lo...”. Saberiam a forma em que se ater e portanto a forma de anular-nos. Já não se estaria diante da “anarquia”, da “desordem”, da “efervescência incontrolável”. A força do nosso movimento reside precisamente no fato de ele se apoiar numa espontaneidade “incontrolável”, que dá o impulso sem pretender canalizar ou tirar proveito da ação que desencadeou.
           
            Em outras palavras, os críticos, os opositores ou mesmo os colaboradores em debate estariam perguntando à juventude das pichações, das aventuras, dos protestos humorados, do “paz e amor”, dos solos de guitarra: “Isto o que vocês fazem é mesmo política?”. Caso não, permanecem os acontecimentos apenas pelo exótico, pelo frenesi e pelas artes. Caso sim, e é o que a História parece grafar, fica-se obrigado a reconhecê-los também como políticos, mesmo longes dos mandatos, das instituições e dos modelos de governo. Nesse ponto, então, sob autoria dos estudantes, a prática política se alarga das propostas e das aplicações estatuárias também para as relações culturais, para a efervescência das mentalidades e para a transformação pelo ímpeto.
            Sartre, que participou do Maio de 68, nomeou este fazer político como “expansão do campo do possível”. Trata-se de um tipo de ação que não prevê as suas decorrências, por não conter antecipadamente um objetivo para elas. A sua motivação é um descontentamento com um modus vivendi, com a radicalidade dos problemas e não apenas com problemas pontuais. A denúncia carregada não define necessariamente o teor daquilo contra o que se reage, pois este mesmo pode apresentar-se difuso e incompleto. A imaginação como enfrentamento traz um meio de expandir as possibilidades, seja das causas do mal-estar generalizado, seja de suas soluções imediatas. Expandir os fenômenos, retirar do nada mais seres para o real, é também uma atitude de transformação para a comunidade. Assemelha-se em termos com a definição que Hannah Arendt (2008) traz em sua carta para o estudante alemão Hans-Jürgen Benedict, às vésperas dos acontecimentos de 68: “A política (...) é a arte do possível”.
            Embora a frase no contexto seja para trazer mais limites à grandeza de “revolução mundial” que Benedict colocava, tratar a política como a inserção nas possibilidades não necessariamente a conserva ou a destina à modéstia das práticas institucionais. Arendt parece apontar sobre a precisão de se pôr a política em um lugar, em um “limite”, a fim de que se saiba por onde insufla-la ou, nas palavras de Sartre, expandi-la. Aumentar o campo de visão do espaço público sobre as condições de se melhorar o que é comum se torna um gesto de criação dentro do limite. Assim, a ação de pensar no possível da política novas formas de exercê-la, ou seja, impingir “a imaginação no poder”, torna-se também um gesto decisivo.
           Tal compreensão relacionada aos movimentos estudantis e culturais da década de 60, assim como as suas próprias decorrências, parece indicar outro sentido de política. Ela não seria um regime ou uma esfera, e sim uma relação com o outro em nível de igualdade, uma participação no que é comum em interferência que favoreça não apenas as mudanças materiais, mas as culturais e históricas. Trata-se de um compromisso em seu sentido ético para com os pares e de uma atividade essencial para a esfera pública.
            Em seu livro póstumo O que é política?, Arendt realimenta o sentido que encontrou entre os gregos: a política seria a atitude de cada qual em relação aos outros, em doação e recepção, manifestando no intercâmbio o compromisso com o bem comum. “Não existe, pois”, diz ela, “uma substância verdadeiramente política. A Política nasce no espaço intermediário e se constitui como relação”. Não se trata, portanto, de um espaço superior à comunidade, e sim um “espaço que está entre os homens”. É nesse espaço intermediário que tomam lugar não apenas as noções de autoridade, de poder e de governo, como também as de expressão e as de cultura.
            A política não se restringe apenas a um instrumento ou a assuntos partidários, como também à ética, ao pertencimento ativo entre os homens enquanto membros de um mesmo corpo. Não se trata apenas de indagar “em quem você vai votar nas eleições?” ou exclamar “eu não acredito mais em política, afinal político nenhum presta”. A dimensão se aprofunda a tal ponto que indagar “qual a sua opinião sobre o esquecimento das raízes tradicionais entre os mais jovens hoje?” ou exclamar, como um dos manifestantes do maio de 68, “Sejam realistas, exijam o impossível!” se faz igualmente participante de um movimento político.
            O que causa admiração em Hannah Arendt quanto à agitação estudantil na década de 60 é a efervescência e a preocupação com o futuro em sentido amplo, seja pela ecologia, pela educação ou por questões comportamentais. Sobre as manifestações da juventude em vários pontos do mundo, a pensadora comenta, em seu ensaio Sobre a violência, de 1969:
Parece descartado um denominador comum e social para o movimento, mas o fato é que esta geração parece em todas partes caracterizada por sua pura coragem, por uma surpreendente vontade de ação e por uma não menos surpreendente confiança na possibilidade das mudanças.

            Uma vez que as preocupações não passam apenas pelas questões técnicas da política, os conteúdos em questão parecem permitir com mais força uma “surpreendente confiança na possibilidade das mudanças”. Arendt que não crê em uma revolução fabricada, ou seja, feita “intencional e arbitrariamente”, e sim a partir da inteireza de circunstâncias e da alimentação transformadora de condições (conforme ela descreve o ponto positivo da Revolução Americana em Sobre a revolução), vê na vontade mais ampla das investidas estudantis, que se somam ao mesmo tempo às ações localizadas de transformações no meio, uma vocação política de grande potencial para mudanças. “Nada no movimento”, entretanto, “é mais surpreendente que seu desinteresse", indica a pensadora, em consonância com o estudante Daniel Cohn-Bendit, para revelar o aspecto de novidade que há na “pura coragem” e na “surpreendente vontade” da juventude. Um desinteresse de objetivo pré-determinado, no interesse de mudar e expandir o que já está posto e trazer cada vez mais o novo.
    
(Saulo Dourado)

domingo, 17 de março de 2013

Freyre sobre o sertanejo


Tanto o excesso de mimo de mulher na criação dos meninos e até dos mulatinhos, como o extremo oposto – a liberdade para os meninos brancos cedo vadiarem com os moleques safados na bagaceira, deflorarem negrinhas, emprenharem escravas, abusarem de animais – constituíram vícios de educação, talvez inseparáveis do regime de economia escravocrata, dentro do qual se formou o Brasil. Vícios de educação que explicam melhor do que o clima, e incomparavelmente melhor que os duvidosos efeitos da miscigenação sobre o sistema do mestiço, a precoce iniciação do menino brasileiro na vida erótica. Não negamos de toda a ação do clima: também na zona sertaneja do Brasil – zona livre da influência direta da escravidão, da negra, da mulata – o menino é um antecipado sexual. Cedo se entrega ao abuso dos animais. A melancia e o mandacaru fazem parte da etnografia do vício sexual sertanejo. A virgindade que ele conserva é a de mulher. E nisto tem consistido sua superioridade tremenda sobre o menino de engenho.

Certas tendências do caráter do sertanejo puxando para o ascetismo; alguma coisa de desconfiado nos seus modos e atitude; o ar de seminarista que guarda a vida inteira; sua extraordinária resistência física; seu corpo anguloso de Dom Quixote, em contraste com as formas mais arredondas e macias dos brejeiros e dos indivíduos do litoral; sua quase pureza de sangue – são traços que se ligam da maneira mais íntima ao fato do sertanejo em geral, e particularmente nas zonas mais isoladas das capitais e das feiras de gado, só conhecer mulher tarde; e quase sempre pelo casamento. Gustavo Barroso, em estudo sobre as populações sertanejas no Nordeste, diz serem comuns, no sertão, rapazes de mais de vinte anos ainda virgens. O que, no brejo e no litoral, seria motivo para debiques e troças ferozes. Sente-se aí o resultado da influência direta da escravidão sobre estas duas zonas; e apenas indireta e remota sobre o sertão.

(Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala,  Global Editora, 51ª edição, p. 459-460)

[ver Gustavo Barroso, Terra de Sol, Rio de Janeiro, 1913]

sábado, 2 de março de 2013

Carta de D'Arthez a Ève, irmã de Lucien

Minha senhora,

Pede-me a verdade sobre a vida que leva em Paris o senhor seu irmão, e deseja ser esclarecida quanto ao seu futuro, e, para induzir-me a responder-lhe francamente, repete-me o que disse o Sr. de Rastignac, perguntando-me se tais fatos são verdadeiros.

No que me concerne, senhora, cumpre retificar, em favor de Lucien, as confidências do Sr. de Rastignac. Seu irmão teve remorsos, e veio mostrar-me a crítica de meu livro, dizendo que não podia resolver-se a publicá-la, apesar do perigo que a desobediência às ordens de seu partido fazia correr a uma pessoa muito cara. Infelizmente, senhora, a tarefa de um escritor é conceber paixões, pois sua glória consiste em expressá-las: compreendi pois que entre uma amante e um amigo, o amigo devia ser sacrificado. Facilitei o crime a seu irmão, eu próprio revisei esse artigo [contra mim], e aprovei-o completamente.

Pergunta-me se Lucien conservou minha estima e minha amizade. Aqui, a resposta é difícil. Seu irmão está num caminho em que se perderá. Agora, ainda o lamento; em breve o terei voluntariamente esquecido, não tanto pelo que ele já fez como pelo que deve ainda fazer. O seu Lucien é um homem de poesia e não um poeta, sonha e não pensa, agita-se e não cria. É, permita-me que o diga, uma mulherinha que gosta de aparecer, o principal vício do francês. Assim, Lucien sacrificará sempre o melhor de seus amigos ao prazer de alardear espírito. De bom grado assinaria amanhã um pacto com o Demônio, se esse pacto lhe desse por alguns anos uma vida brilhante e luxuosa. Já não fez pior, trocando o seu futuro pelas passageiras delícias de sua vida pública com uma atriz? Neste momento, a mocidade, a beleza, a dedicação dessa mulher, pois ela o adora, lhe ocultam os perigos de uma situação que nem a glória, nem o sucesso, nem a fortuna fazem que a sociedade a admita. Pois bem, a cada nova tentação, o seu irmão só há de ver, como hoje, apenas os prazeres do momento. Tranquilize-se, Lucien jamais irá até o crime, não teria forças para tal; mas aceitaria um crime já consumado, participaria dos seus proveitos sem ter participado dos perigos: o que parece horrível a todo mundo, até aos celerados. Sentirá desprezo por si mesmo, arrepender-se-á; mas, voltando a necessidade, começará tudo de novo; pois falta-lhe vontade, não tem forças contra os engodos da volúpia, contra a satisfação de suas mínimas ambições. Preguiçoso como todos os homens de poesia, julga-se muito hábil quando escamoteia as dificuldades em vez de as vencer. Terá coragem em determinada hora, mas em tal outra será covarde. E não se lhe deve louvar a coragem nem tampouco censurar a covardia: Lucien é uma harpa cujas cordas se retesam ou relaxam ao sabor das variações atmosféricas. Poderá fazer um belo livro numa fase de cólera ou de felicidade, e mostrar-se insensível ao sucesso depois de o ter desejado.

Desde os primeiros dias de sua chegada a Paris caiu sob o domínio de um moço sem moralidade, mas cuja astúcia e experiência em meio às dificuldades da vida literária o deixaram deslumbrado. Esse prestidigitador seduziu completamente Lucien, arrastou-o a uma existência sem dignidade sobre a qual, infelizmente para ele, o amor lançou o seu fascínio. Quando concedida muito facilmente, a admiração é um sinal de fraqueza: não se deve pagar na mesma moeda um funâmbulo e um poeta. Sentimo-nos todos melindrados com a preferência dada à intriga e ao charlatanismo literário, em detrimento da coragem e da honra dos que aconselhavam a Lucien que aceitasse o combate em vez de surripiar o sucesso, que se lançasse na arena em vez de se fazer um dos clarins da banda.

A sociedade, minha senhora, é, por singular capricho, plena de indulgência para com os jovens dessa natureza; ama-os, deixa-se enlevar pela bela aparência de seus dotes exteriores; deles, nada exige, desculpa todas as suas faltas, concede-lhes os benefícios das naturezas completas, só enxergando as suas vantagens; transforma-os, em suma, em meninos mimados. Pelo contrário, é de uma severidade sem limites para com as naturezas fortes e completas. Nesse modo de proceder, a sociedade, tão violentamente injusta na aparência, é talvez sublime. Diverte-se com os bufões, sem lhes pedir outra coisa senão prazer, e esquece-os prontamente; ao passo que, para dobra o joelho ante a grandeza, pede-lhe divinas magnificiências. Para cada coisa, a sua lei: o diamante eterno deve ser sem mácula, a criação momentânea da moda tem o direito de ser leviana, esquisita e sem consistência. Assim, apesar de seus erros, talvez Lucien triunfe às mil maravilhas, basta-lhe aproveitar uma veia feliz, ou achar-se em boa companhia; mas, se encontra um anjo mau, irá até o fundo do inferno. É um brilhante conjunto de belas qualidades bordadas sobre um fundo demasiado frágil; a idade carrega as flores, e lá um dia não resta mais que o tecido; e, se o tecido é mau, só se vê um trapo. Enquanto for jovem, Lucien agradará; mas, aos trinta anos, em que posição estará ele? Tal a pergunta que se devem fazer aqueles que o estimam sinceramente. Se eu fosse o único a pensar desse modo a respeito de Lucien, teria talvez evitado desgostá-la tanto com a minha sinceridade; mas, além de que contornar com banalidades as perguntas formuladas por sua solicitude me parecia indigno da senhora, cuja carta é um brado de angústia, e indigno de mim, de quem faz tão alta estima, os meus amigos que conheceram Lucien são unânimes neste juízo: vi pois o cumprimento de um dever na manifestação da verdade, por mais terrível que seja.

Tudo se pode esperar de Lucien, tanto no bem como no mal. Tal o nosso pensamento, numa única frase em que esta carta se resume.

Se os acasos da sua vida, agora tão miserável e precária, levarem o poeta para junto da senhora, use de toda a sua influência para conservá-lo no seio da família; pois, até que seu caráter tenha adquirido firmeza, Paris será sempre perigoso para ele. Lucien os chamava, à senhora e a seu marido, de seus anjos da guarda, e sem dúvida os esqueceu; mas se lembrará dos dois no momento em que, acossado pela tempestade, só terá para asilo a sua família; conserve-lhe pois o seu afeto, minha senhora, de que ele há de ter necessidade.

Aceite, senhora, as sinceras homenagens de um homem de quem são conhecidas as suas preciosas qualidades e que muito respeita as suas maternais inquietações para aqui oferecer-lhe os seus préstimos, confessando-se seu dedicado servidor,

D'Arthez

(Ilusões Perdidas, Balzac, pp. 520-523, Ed. Círculo do Livro)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ilusões Perdidas, de Balzac - Lucien e D'Arthez




- O senhor parece estar triste? – respondeu o desconhecido.
- Acaba de me acontecer uma singular aventura – disse Lucien.
E contou a visita aos livreiros do cais, depois a outra ao velho editor, e as propostas que acabava de receber. Disse o seu nome e algumas palavras sobre sua situação. No espaço de um mês, mais ou menos, havia gasto sessenta francos em refeições, trinta francos de hospedagem, vinte no teatro, dez no gabinete literário, ao todo cento e vinte francos; não lhe restavam mais que cento e vinte.
- Senhor – disse-lhe o desconhecido -, sua história é a minha e a mesma de mil e mil e duzentos jovens que todos os anos chegam da província a Paris. Não somos ainda dos mais desgraçados. Vê este teatro? – disse, mostrando a cúpula do Odéon – Um dia veio alojar-se numa das casas que ficam ali na praça um homem de talento que se havia despenhado nos abismos da miséria. Casado (acréscimo de desgraça que não nos aflige ainda nem a um nem ao outro) com uma mulher que ele amava, e mais empobrecido ainda, ou enriquecido – como quiser -, por dois filhos; crivado de dívidas, mas confiante em sua pena. Apresentou no Odéon uma comédia em cinco atos. Foi aceita. Obteve prioridade. Os artistas a ensaiaram, o diretor ativou os ensaios. Mas essas cinco felicidades constituíram cinco dramas ainda mais difíceis de realizar do que escrever os cinco atos. O pobre autor, albergado numa água-furtada que daqui se pode ver, esgota os últimos recursos para viver durante a montagem da peça (...) O poeta conservara [afinal] apenas o necessário: uma casaca, uma camisa, umas calças, um colete e um par de botas. Seguro do sucesso, vem beijar a mulher e lhe anuncia o fim de seus infortúnios. “Enfim, não há mais nada contra nós!”, exclama ele. “Há o fogo”, diz a mulher; “olha, o Odéon arde”. E o Odéon ardia, senhor. Não se lamente, pois. Tem roupas, não tem mulher nem filhos, tem por sorte cento e vinte francos no bolso, e nada deve a pessoa alguma. A peça de que lhe falei obteve afinal cento e cinquenta representações no Théâtre Louvois. O rei concedeu, depois, uma pensão ao autor. Buffon o disse: o gênio é a paciência. A paciência é, com efeito, o que no homem mais se assemelha ao processo que a natureza emprega em suas criações. O que é a arte, senhor, senão a natureza concentrada?
Os dois rapazes caminhavam agora pelo Luxembourg. Lucien soube logo o nome, que depois se tornou célebre, do desconhecido que se esforçava por consolá-lo. Era Daniel d’Arthez, hoje um dos mais ilustres escritores da época e uma dessas raras criaturas que, segundo o belo pensamento de um poeta, oferecem “a amálgama de um belo talento e de um belo caráter”.                       
    - Não se pode ser um grande homem gratuitamente – afirmou Daniel com a sua voz branda – O gênio orvalha suas obras com lágrimas. O talento é uma entidade moral que tem, como todos os seres, uma infância sujeita a várias doenças. A sociedade repele os talentos incompletos, como a natureza elimina as criaturas fracas ou malconformadas. Quem se quer elevar acima dos homens deve preparar-se para a luta, não recuar diante de dificuldade alguma. Um grande escritor é um mártir que não morrerá. Eis tudo. O senhor tem na fronte o selo do gênio – disse D’Arthez a Lucien, envolvendo-o num olhar; - se não tem dele a vontade no coração, se dele não possui a paciência angélica, se a qualquer distância da meta em que ponham os caprichos do destino não souber retomar o caminho de seu infinito, como as tartarugas que, seja qual for o lugar em que estiverem, tomam sempre o rumo do seu amado oceano, então renuncie hoje mesmo.
            - Aguarda então, também, muitos sofrimentos? – perguntou Lucien.
            - Provações de toda espécie; calúnias, traições, injustiças de meus rivais; desaforos, espertezas e grosserias do comércio – respondeu o moço com voz resignada – Se a sua obra é bela, que importa uma primeira perda...
            - Quer ler e julgá-la? – perguntou Lucien.
            - Seja – disse D’Arthez – Moro na Rue des Quatre-Vents...
            (...)
            A leitura durou sete horas. Daniel ouviu religiosamente, sem dizer palavra nem fazer uma só observação, uma das mais raras provas de bom gosto que possa dar um escritor.
            - E então? – disse Lucien, colocando o manuscrito sobre a chaminé.

                                                                       
      - O senhor vai por um bom e belo caminho – respondeu gravemente o moço -, mas sua obra precisa ser remodelada. Se não quer macaquear a Walter Scott, é-lhe necessário criar uma técnica diferente, e o senhor o imitou. Começo, como ele, por longas conversações para apresentar as personagens; terminada a conversa, é que vem a descrição e a ação. Esse antagonismo necessário a toda obra dramática vem por último. Inverta os termos do problema. Substitua essas conversas difusas, magníficas em Scott, porém sem cor no seu livro, por descrições às quais tanto se presta a nossa língua. Faça com que, em seu livro, o diálogo seja a consequência esperada a coroar os preparativos. Entre preliminarmente na ação. Tome o assunto ora pelo meio, ora pelo fim. Varie, enfim, os seus planos, para não ser sempre o mesmo. Será mesmo original adaptando à história de França a forma do drama dialogado do escocês. Walter Scott não tem paixão, ignora-a, ou talvez lhe fosse ela interdita pelos costumes hipócritas de seu país. Para ele, a mulher é a encarnação do dever. Com raras exceções, suas heroínas são absolutamente iguais; usou para todas elas o mesmo toque, segundo a expressão dos pintores. Procedem todas do mesmo [tipo ingênuo, pouco ativo, vítima do primeiro sedutor]; relacionando todas com uma ideia, não podia senão tirar cópias do mesmo tipo, variando-as apenas pelo colorido mais ou menos vivo. A mulher leva a desordem à sociedade pela paixão. A paixão tem acidentes infinitos. Pinte pois as paixões, e terá os imensos recursos de que se privou aquele grande talento para ser lido por todas as famílias da puritana Inglaterra. Em França, encontrará os pecados encantadores e os costumes brilhantes do catolicismo para opor às sombrias figuras do calvinismo durante o período mais apaixonado de nossa história. Cada grande reinado, a partir de Carlos Magno, necessita pelo menos de uma obra, e por vezes quatro ou cinco, como os de Luís XIV, Henrique IV, Francisco I. Fará assim uma história da França pitoresca, na qual pintará os costumes, os móveis, as casas, os interiores, a vida privada, comunicando-lhe o espírito do tempo em vez de narrar penosamente fatos conhecidos. Encontrará meio de ser original reparando os erros populares que desfiguram a maior parte de nossos reis. Ouse, em sua primeira obra, restabelecer a grande e magnífica figura de Catarina, que o senhor sacrificou aos preconceitos que subsistem ainda contra ela. Pinte, enfim, Carlos IX como em verdade foi, e não como o fizeram os escritores protestantes. Ao cabo de dez anos de persistência há de alcançar glória e fortuna.
              Eram já nove horas. Lucien, imitando a ação oculta de seu futuro amigo, ofereceu-lhe um jantar no Édon, onde despendeu doze francos. Durante o jantar, Daniel revelou a Lucien o segredo de suas esperanças e de seus estudos. D’Arthez não admitia talento superior sem profundo conhecimento da metafísica. Entregava-se nessa ocasião ao assalto de todos os tesouros filosóficos dos tempos antigos e modernos, para os assimilar. Queria, como Molière, ser um filósofo profundo antes de escrever comédias. Estudava o mundo escrito e o mundo vivo, o pensamento e os fatos. Tinha como amigos sábios naturalistas, jovens médicos, escritores políticos e artistas, círculo de pessoas estudiosas, sérias, cheias de futuro. Vivia de artigos conscienciosos e mal pagos, feitos para dicionários biográficos, enciclopédicos ou de ciências naturais. Não escrevia nem mais nem menos do que o necessário para viver e poder dedicar-se ao seu sonho. D’Arthez entregara-se a uma obra de ficção unicamente para estudar os recursos da língua. O livro, inacabado ainda, tomado e deixado por capricho, era guardado para os dias de grande abatimento. Era uma obra psicológica e de largo fôlego, sob a forma de romance.
            Embora Daniel mal se houvesse revelado modestamente, pareceu gigantesco a Lucien. Ao sair do restaurante, às onze horas, Lucien já se havia tomado de viva amizade por aquela virtude sem ênfase, por aquela natureza sublime sem o saber.


(BALZAC, Ilusões Perdidas. Ed. Círculo do Livro. Trad. Ernesto Pelanda. pp. 214-219)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A irreversibilidade e o poder de perdoar


O trecho a seguir é extraído do livro "A condição humana", de Hannah Arendt, publicado em meados da década de 50. Possivelmente é sua resposta à questão colocada à época, na qual se demonstrava o espanto de a humanidade continuar, após todos os desastres coletivos que se presenciou. Arendt, que fugiu para os Estados Unidos em decorrência direta de um dos desastres, compôs ela mesma esse lembrete, que ainda hoje nos serve para os mais diversos assuntos.

                                                                          *




O remédio contra a irreversibilidade e a imprevisibilidade do processo que ela desencadeia não provém de outra faculdade possivelmente superior, mas é uma das potencialidades da própria ação. A redenção possível para a vicissitude da irreversibilidade – da incapacidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse nem se pudesse saber o que se fazia – é a faculdade de perdoar. O remédio para a imprevisibilidade, para a caótica incerteza do futuro, está contido na faculdade de prometer e cumprir promessas. As duas faculdades formam um par, pois a primeira delas, a de perdoar, serve para desfazer os atos do passado, cujos “pecados” pendem como espada de Dâmocles sobre cada nova geração; e a segunda, o obrigar-se através de promessas, serve para instaurar no futuro, que é por definição um oceano de incertezas, ilhas de segurança sem as quais nem mesmo a continuidade, sem falar na durabilidade de qualquer espécie, seria possível nas relações entre os homens.

Se não fôssemos perdoados, liberados das consequências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos para sempre as vítimas de suas consequências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço. Sem estarmos obrigados ao cumprimento de promessas, jamais seríamos capazes de conservar nossa identidade; seríamos condenados a errar, desamparados e sem rumo, nas trevas do coração de cada homem, enredados em suas contradições e seus equívocos – trevas que só podem ser dissipadas pela luz derramada no domínio público pela presença de outras, que confirmam a identidade entre aquele que promete e aquele que cumpre. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade, da presença e da ação de outros, pois ninguém pode perdoar a si mesmo e ninguém pode se sentir obrigado por uma promessa feita apenas para si mesmo; o perdão e a promessa realizados na solitude e no isolamento permanecem sem realidade e não podem significar mais do que um papel que a pessoa encena para si mesma.

Uma vez que essas faculdades correspondem tão de perto à condição humana da pluralidade, o papel que desempenham na política estabelece um conjunto de princípios orientadores diametralmente opostos aos padrões “morais” inerentes à noção platônica de governo. Pois o governo platônico, cuja legitimidade baseava-se no domínio de si-mesmo, extrai seus princípios orientadores – aqueles que justificam e ao mesmo tempo limitam o poder sobre os outros – de uma relação estabelecida entre mim e mim mesmo, de sorte que o certo e o errado nas relações com os outros são determinados pelas atitudes com relação ao si-mesmo, até que todo o domínio público passa a ser visto à imagem do “homem escrito em maiúsculo”, da ordem adequada entre as capacidades individuais da mente, da alma e do corpo do homem. Por outro lado, o código moral inferido das faculdades de perdoar e de prometer baseia-se em experiências que ninguém jamais pode ter consigo mesmo e que, ao contrário, se baseiam inteiramente na presença de outros. E, do mesmo modo como a dimensão e as formas de governo-de-si justificam e determinam o governo dos outros – governam-se os outros como se governa a si mesmo -, também a dimensão e as formas do perdão e das promessas que o indivíduo recebe determinam a dimensão e as formas do perdão que ele pode ser capaz de conceber a si próprio ou do cumprimento de promessas que só a ele dizem respeito.

(...)

O motivo da insistência sobre um dever de perdoar [para Jesus de Nazaré, o descobridor do papel do perdão no domínio dos assuntos humanos, por exemplo], é, obviamente, que os homens “não sabem o que fazem”, e não se aplica ao caso extremo do crime e do mal voluntário, pois do contrário não teria sido necessário ensinar que, “se ele te ofender sete vezes no dia, e sete vezes no dia retornar a ti, dizendo ‘me arrependo’, tu o perdoarás”. O crime e o mal voluntário são raros, mais raros talvez que as boas ações (...). A ofensa, contudo, é uma decorrência cotidiana, decorrência natural do fato de que a ação estabelece constantemente novas relações em uma teia de relações, e precisa do perdão, da liberação, para possibilitar que a vida possa continuar, desobrigando constantemente os homens daquilo que fizeram sem o saber. Somente mediante essa mútua e constante desobrigação do que fazem os homens podem ser agentes livres; somente com a constante disposição para mudar de ideia e recomeçar pode-se confiar a eles um poder tão grande quanto o de começar algo novo.

Sob esse aspecto, o perdão é o exato oposto da vingança, que atua como re-ação a uma ofensa inicial, com a qual, longe de porem fim às consequências da primeira falta, todos permanecem enredados no processo, permitindo que a reação em cadeia contida em cada ação siga livremente seu curso. Ao contrário da vingança, que é a reação natural e automática à transgressão e que, devido à irreversibilidade do processo da ação, pode ser esperada e até calculada, o ato de perdoar jamais pode ser previsto; é a única reação que atua de modo inesperado e, embora seja reação, conserva algo do caráter original da ação. Em outras palavras, o perdão é a única reação que não re-age apenas, mas age de novo e inesperadamente, sem ser condicionado pelo ato que a provocou e de cujas consequências liberta, por conseguinte, tanto o que perdoa quanto o que é perdoado (...).

(ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. Adriano Correia. Ed. Gen, Forense Universitária, 11ª edição, pp. 295-300). 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Trecho de Márcia Schuback


O mundo melhor significa, para a vida, um mundo sem nenhuma falta, um mundo plenamente satisfeito. Significa o mundo que, ao construir e encontrar seu modo de viver e preencher seus vazios, preserva a falta e o vazio necessários para que o mundo prossiga o seu curso. Se o “melhor” para a vida é encontrar modos que preservem a sua força e vitalidade e sendo a “falta” o que alimenta essa força, o horizonte de futuro é apreendido, em princípio, como lugar de uma falta, como lugar vazio. Por definição, o futuro implicado num mundo melhor, ou seja, num mundo que preserva e potencia a sua vitalidade, não se refere a um tempo que vem depois, a uma ideia de progresso e nem à espera que adia a vida em favor de uma forma calculada de vida, mas à possibilidade de se preservar o vazio mobilizador das criações. Isso significa que o futuro assim entendido está de tal forma ligado ao passado que se pode até mesmo defini-lo como um futuro do pretérito. Trata-se do mundo que se enuncia como o que poderia ser dentro desse mundo em que nos encontramos, dentro das condições que sempre já trazemos enquanto seres históricos. O mundo melhor seria, portanto, o mundo que preserva viva a condição de uma construção histórica e não simplesmente o mundo que preserva as formas já concebidas historicamente. Trata-se do mundo que “imita” a vida e não os produtos ou resultados de um embate prévio com a vida. Trata-se do mundo que expõe o que poderia ser e não simplesmente arquiva o que foi. O tempo futuro de um mundo melhor define-se como o tempo que acolhe o passado no sentido de sua própria possibilidade, tornando-o vivo e presente. É mais do que um tempo. É um modo de preservar e aprimorar a vida.

(SCHUBACK, Marcia Sá Cavalcante. Para ler os medievais - ensaio de hermenêutica imaginativa. Petrópolis: Ed. Vozes, 2000. pp. 29-30)

domingo, 18 de novembro de 2012

Trecho de O Sonâmbulo Amador


Segue trecho do novo romance de José Luiz Passos, O Sonâmbulo Amador, em que Jurandir, o narrador-personagem, faz a leitura dramática de uma peça sobre o místico sertanejo Lantânio, a ser montada na clínica onde se encontra. Na cena, um capitão vai capturar por fim o religioso, e os dois travam este diálogo:


Mande os seus saírem dos buracos, ele disse.
Não posso tirar ninguém de seu canto.
Já levantei o braço e daqui a pouco duzentos soldados vão estar aqui em cima de você, ele disse.
Então seremos duzentos e dois.
Onde estão os seus?
Estão do seu lado.
Como assim?
Os meus estão do seu lado, eu disse.
Você agora está sozinho.
Eu estou com você, eu disse.
Você está preso e agora vai morrer.
Você também.
Como assim?
Você também vai morrer.
Eu vou morrer de quê? Quem vai me matar?
Isso importa?
Vou morrer mas não vou morrer agora, ele disse.
Você se importa com a hora certa?
Me importo que você agora esteja preso, ele disse.
Então pode baixar o braço.
Agora você vai ver o que vai lhe acontecer.
Agora somos duzentos e dois, eu disse.
E todos estão do meu lado.
São duzentos e dois os lados, eu disse.

                                                                           *

sábado, 10 de novembro de 2012

Trecho de "O Filho Eterno"

Tenho me orgulhado muito de uma nova literatura brasileira, feita com ocupação narrativa e densidade prenhe de humanidade. Estes escritores, todos coincidentemente ou não na faixa etária dos 50 anos, acadêmicos e pacientes em um exercício que vêm há décadas, desbaratam as nossas faltas em todas as camadas, do público ao privado que um homem é, e nos tranquilizam gravemente. Um deles é Cristóvão Tezza, muito enaltecido, e com justiça, pelo seu romance "O Filho Eterno", do qual destaca o trecho abaixo:

"E no entanto sente-se um otimista - ele sorri, vendo-se do alto, como no cartum imaginado, agora uma figura real. Sozinho no corredor, dá outro gole de uísque e começa a ser tomado pela euforia do pai nascente. As coisas se encaixam. Um cromo publicitário, e ele ri do paradoxo: quase como se o simples fato de ter um filho significasse a definitiva imolação ao sistema, mas isso não é necessariamente mau, desde que estejamos 'inteiros', sejamos 'autênticos', 'verdadeiros' - ainda gostava dessas palavras altissonantes para uso próprio, a mitologia dos poderes da pureza natural contra os dragões do artifício. Ele já começa a desconfiar dessas totalidades retóricas, mas falta-lhe a coragem de romper com elas - de fato, nunca se livrou completamente desse imaginário, que, no fundo da alma, significava manter o pé atrás, atento, em todos os momentos da vida, para não ser devorado pelo violento e inesgotável poder do lugar-comum e da impessoalidade. Era preciso que a 'verdade' saísse da retórica e se transformasse em inquietação permanente, uma breve utopia, um brilho nos olhos.

Como agora: e ele deu outro gole da bebida, quase entrando no terreno da euforia. Ele queria criar a solenidade daquele momento, uma solenidade para uso próprio, íntimo, intransferível. Como o diretor de uma peça de teatro indicando o ator os pontos da cena: sinta-se assim; mova-se até ali; sorria. Veja como você tira o cigarro da carteira, sentado sozinho neste banco azul, enquanto aguarda a vinda do seu filho. Cruze as pernas. Pense: você não quis acompanhar o parto. Agora começa a ficar moda os pais acompanharem o parto dos filhos - uma participação quase religiosa. Tudo parece que está virando religião. Mas você não quis, ele se vê dizendo. É que o meu mundo é mental, talvez ele dissesse, se fosse mais velho. Um filho é a ideia de um filho; uma mulher é a ideia de uma mulher. Às vezes as coisas coincidem com a ideia que fazemos delas; às vezes não. Quase sempre não, mas aí o tempo já passou, e então nos ocupamos de coisas novas, que se encaixam em outra família de ideias. Ele não quis nem mesmo saber se será um filho ou uma filha: a mancha pesada da ecografia, aquele fantasma primitivo que se projetava numa telinha escura, movendo-se na escuridão e no calor, não se traduziu em sexo, apenas em ser. Preferimos não saber, foi o que disseram ao médico. Tudo está bem, parece, é o que importa".

Cristóvão Tezza, O Filho Eterno, Edições Best Bolso, pp. 12-13

sábado, 3 de novembro de 2012

O sertão é um exagero



                                                   Irecê antes da chuva - por Irecê News

            Pude viajar pelo interior da Bahia durante a seca de agora. Seguiam comigo pessoas próximas, vindas de outras partes do país, que nunca haviam presenciado o sertão. Eu ali nasci, entre as sacas de mamona e feijão no município de Irecê, e mesmo que tenha partido desde criança para a capital, eu nunca fui outra coisa – não consegui trocar o pirão de leite com carne do sol pelo caruru, tentei e não aconteceu de eu gostar de samba em vez de qualquer canção que lembre a melancolia contente das roças. Para melhor apresentá-la, fomos nós quatro por uma das estradas que estala o mesmo susto de Euclides da Cunha ao seguir para Canudos no fim do século XIX. Após os chapadões da zona diamantina e o verde constante, “em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido...”.  Sobe-se Morro do Chapéu pela BA 052 e logo se vê a vegetação baixar, se rastejar, e por fim rarear na planície. "As plantas aqui se escondem do sol".
            A reação é a de paragem – tempo e espaço. A paisagem não tem fim e nem se altera. Se não fossem as pequenas cidades, a estrada, as placas, poderia achar-se que não havia entrada nem saída. E não há: em todos os vales e litorais, parece que inauguramos os caminhos, e o que era nada ganhou nome e mundo. Nos campos áridos que vão do Maranhão ao norte de Minas Gerais, cada estrada, cada casa, cada barragem é apenas sobre o sertão, nunca com ele, nunca dentro dele. Passada uma cidade em punho com todas as suas estruturas, o sertão se torna ainda maior. O mandacaru não abstrai qualquer forma de gente, o umbuzeiro é milagre e o gado vira a traseira de rabo abanando para quem se vê passar. "A natureza ri da cultura", disse Milton Hatoum sobre o transbordamento da floresta amazônica, e o mesmo repetiríamos para a exagerada ausência.
            O consolo ante o pavor que causa o sertão é a sua suposta fraqueza e impropriedade. O sertão é uma revelia, um subversivo, mas não entrega nada em troca. A secura que não cessa e que suga os olhos, sulca os lábios, esbranquiça os cotovelos e joelhos, é a que derruba o gado, silencia as mudas nas plantações, enlouquece pelo calor. Não há recompensa em admirá-lo, como respeitamos os estrondos do Norte. Os assombrados preferem assim esquecer que este ar maldito é justamente o lado da mágica, e que Asa Branca tem continuação com outros versos de Humberto Teixeira: “Rios correndo/As cachoeira tão zoando/Terra moiada/ Mato verde, que riqueza/ E a asa branca/ Tarde canta, que beleza/Ai, ai, o povo alegre/ Mais alegre a natureza”. Guimarães Rosa condensa: “O sertão é uma espera enorme”. Nenhum vegetal jamais morreu; apenas aguarda. O que é oculto por meses eclode com uma única torrente de água, e o verde se toma qual o estouro de uma bala com estilhaços, a que tanto assustou os soldados da campanha de Canudos. A terra devolve a sentença de infertilidade e tampouco aceita a reconsideração do contrário: ela não é nem isto nem aquilo, é uma brecha, uma oportunidade, uma destemida precisão. Toma vulto e vinga a dignidade do seu nome: ser-tão, ser tanto.
            Com a mesa farta de maxixe, abóbora, galinha, feijão, arroz e tomate, nenhum deles comprado, apenas um pouco regados e criados no quintal de minha avó, em meio a maior seca das últimas décadas, revivi com os olhos dos meus amigos a desmedida do paradoxo. A desmedida entre a secura e a abundância é uma constante no sertão, não só em sua geologia. Entre os parentes e em mim mesmo percebo a insígnia da prudência pronta para a apoteose. Da desconfiança pode surgir a recepção espetacular, do ajuizamento o crime de amor, da tristeza um baião. Cresci escutando sobre um pacato tio-avô que, ao ser acusado de seduzir a cunhada mais nova, subiu em uma pedra e gritou “agora deem o jeito de vocês!”, para em seguida beber veneno em uma bacia. Custei a entender Ivanecy Matias, com pouco mais de um metro e meio, derrubar um garrote no braço, matar um cachorro pela pata e chorar à noite porque minha mãe não o havia visitado. É a mesma hipérbole da família Dourado, que por gerações casou-se somente entre si, numa espécie de dinastia que povoou toda a região, e ao fundar uma terra na circunvizinhança, não a nomeou como Vila dos Dourados ou simplesmente Dourados, mas como América Dourada, onde fica o povoado de Nova América, logo depois de Mundo Novo. É do sertão que se transformará a totalidade ou dela se salvará, nisto cria Antonio Conselheiro e Lampião, os símbolos do dilúvio nordestino.
Os urbanos é que são simplistas, os sertanejos falam em reinos e cosmos. Se do barro rachado nascem a beterraba e a cebola, da gente toda transbordarão as eras. Foi o que, grafado no imaginário, confundiu o cantor Belchior quando migrou para o Sul. Sem entender a pequenez que  lhe viam, respondeu a toques de seis cordas e violino clássico: "Nordeste é uma ficção/Nordeste nunca houve/ Não, eu não sou do lugar dos esquecidos/ Não sou da nação dos condenados/ Não sou do sertão dos ofendidos/ Você sabe bem: conheço o meu lugar”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Comentário sobre os últimos comentários



 Puxa, como isto bole na gente! A discussão aqui é das melhores e o que vocês me disseram deram um belo nó, cujo processo de fazer e desfazer pode ser o agrado de anos. Penélope nos ensinou desde as bases do pensamento ocidental como deveríamos proceder com as questões mais elementares e qual a paciência de reflexão tomaríamos ao tecer panos inacabáveis, ainda que inúmeros aspirantes - as opiniões - exigissem uma solução imediata. Se podemos crer que um conceito verdadeiro possa vir qual Ulisses em seu regresso, de espada em punho, talvez valha a pena a pergunta por qual tipo de "heroi" e qual tipo de "verdade" desejaríamos: uma definitiva, de reino perpétuo, ou uma que permitisse outros tecelões e outros regressos?

O problema de muitas religiões, tal como se apresenta e do modo como alguns as vivenciam, é a escolha pelo primeiro Ulisses, pois pelo preceito básico de que a própria crença se vincula a um ponto universal, logo aqueles que estiverem fora dela estão equivocados, uma vez que participam do universo envolvido. O toque para o que vem, seja aos religiosos ou não-religiosos, seja a qualquer vínculo que trapaceie com as diferenças (foi o meu caso com a matéria do jornal), é um tipo de Ulisses que não exclua, tampouco inclua, mas possibilite. O que eu achei ótimo no comentário de Reinofy foi isto: talvez as religiões precisem agora de mais ateísmo, sim, muito ateísmo, para deixar Deus livre para todos.

domingo, 23 de setembro de 2012

"Salvador é a 3ª capital com mais pessoas sem religião"


O objetivo da resposta a seguir é desarmar uma espécie de argumentação, sem defender qualquer conteúdo apresentado. O grande problema está na forma e nas consequências.

A matéria de capa do Jornal A Tarde de hoje, assinada por Luana Almeida, traz o último censo do IBGE sobre as escolhas religiosas dos baianos. Os católicos permanecem em primeiro lugar, os evangélicos quase duplicam as suas estatísticas, os espíritas também crescem e os adeptos do candomblé passam enfim a se revelar mais. O que mais chamou a atenção para a reportagem, no entanto, e inclusive é a manchete, foi o aumento do número de pessoas que se declaram "sem religião", que torna Salvador a 3ª capital com mais gente pautada nesta escolha. A fim de interpretar e exemplificar tais dados, houve três recortes: 1) declarações do antropólogo Ordep Serra; 2) declarações do antropólogo Jocélio Teles dos Santos; 3) o caso de uma jornalista que se declara sem religião e é casada com um evangélico.

No primeiro ponto, com a leitura de Serra, foram aspeadas as seguintes frases: "Vivemos hoje em um país mais livre, mas existem casos de perseguição religiosa. Muitas pessoas ainda escondem, ou por timidez ou por medo de iniciarem uma discussão a respeito" e "Muitos não querem o compromisso de fidelidade a uma crença". No segundo ponto, foi destacado o seguinte depoimento do Prof. Jocélio: "Considero um fenômeno da modernidade. Atualmente, pode-se assistir a uma missa, frequentar um terreiro de candomblé, ir a um ritual de umbanda, conhecer um culto na Igreja Evangélica, sem estar vinculado a nenhuma destas religiões, sem ser obrigado a segui-las pelo resto da vida". Viu-se como prova de tal análise o caso de uma jornalista de origem católica, casada com um evangélico, que não optou por nenhuma religião em especial. "Hoje, afirma que está conhecendo um pouco mais do espiritismo, mas ainda não tem uma definição concreta se irá seguir a doutrina", conforme se escreve na reportagem.

Nos três casos, as escolhas interpretativas seguem que o soteropolitano ou ainda teme o preconceito histórico de afirmar determinada religião ou é reflexo de uma tendência contemporânea em passear por vários eixos espirituais ou ainda está indeciso. Assim, estar "sem uma religião" é ainda um movimento que pressupõe a adoção religiosa, seja por temor, por infidelidade ou por projeto. Em nenhum momento se imagina que os 17, 6% que se declaram sem opção espiritual podem não querer e não pretender batismo algum, isto é, são céticos, ateus e agnósticos por princípio (as noções não são utilizadas em nenhum momento do texto). Além das premissas serem problemáticas, pois traz o elemento do preconceito quando se mostra ao mesmo tempo que os adeptos do candomblé, por exemplo, triplicaram, e a questão da dispersão contemporânea, quando já somos a capital do sincretismo há mais de 300 anos, apresenta-se na matéria uma conclusão falsa, e pior, oculta, de que o homem tende natural e essencialmente para algum destino universal, no caso, a religião, e de que o "voto nulo", por assim dizer, para a espiritualidade não é de fato uma escolha.

domingo, 19 de agosto de 2012

B sobre Milton Santos


Meu caro Saulo,

Você iria gostar muito de ler Milton Santos, nas suas reflexões sertanistas — aliás todos vocês. Inclusive porque ele inventou mais conceitos que a Colorama e a Risqué inventaram nomes de esmaltes juntos. Embora nunca estivesse preocupado em fixá-los com rigor, mas tão-somente queria propor novos nomes para novos fenômenos, em um dos seus livrinhos (todos são bem pequenos, de fácil leitura), chamado "A Urbanização Brasileira", ele sugere estes conceitos intermediários de que sente falta. 

Ele diz que não dá mais para falar de Brasil urbano e Brasil rural, mas de um Brasil agrícola com urbanização ("a agricultura tecendo a dinâmica e nexo da cidade") e de um Brasil urbano com aspectos rurais ("embora o secundário e o terciário predominem").

Ele também atenta para o fato de ser difícil conceituar se a gente generaliza. Uma de suas famosas classificações de espaço é a que delimita três tipos de interação homem-natureza: o meio natural, o meio técnico e o meio técnico-científico-
informacional. O primeiro é aquele ambiente em que o homem subjuga-se ao tempo e possibilidades da natureza originária de um terreno, como os portugueses explorando pau-brasil. O segundo, o homem já domina algumas técnicas que permitem-lhe domar, em parte, a natureza. E o terceiro, bem, você já imagina.

Acontece que, diz Milton Santos, esta evolução espacial se dá em tempos diferentes no conjunto do país e mesmo em um mesmo lugar. À interpolação das camadas de um meio com outro ele chama de — olha que lindo — rugosidades. Os pescadores do Rio Vermelho seriam uma rugosidade.

Mas eu tô falando tudo isto porque ele faz uma observação interessante sobre o processo de colonização determinando as nossas dinâmicas regionais.  O Nordeste, tendo sido o primeiro lugar colonizado e onde vingou a primeira estratégia econômica, baseada no latifúndio, ficou muito marcado pelo meio técnico a que lhe foi imposto — a produção agrícola em larga escala, notadamente para exportação; e em menor escala, para consumo local.

O Centro-Oeste, ao contrário, foi colonizado sobretudo a partir dos anos 1960, uma época em que já tínhamos dinâmicas econômicas novas, criadas pela ascensão do meio técnico-científico-
informacional. Eu sempre tentei comparar cidades a homens, no sentido de que cidades mais velhas seriam mais experientes. Mas, ao que parece, o ponto da analogia é outro: quanto mais jovens, mais flexíveis e adaptáveis aos novos processos!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Radioca



Tenho mais músicas à minha disposição, o que não me faz lembrar de nenhuma na hora de escutá-las. Entre as pastas em vez dos discos, não sei dos meus limites e portanto não posso me definir. É preciso ser finito para escolher, já diziam, e por isso um deus não pode ser livre. No infinito de possibilidades, não há mais pelo quê se morrer, e conseguir uma coisa é a lembrança de ter deixado todas as outras. Mais do que o "ser é", "o não-ser não é". Tudo isso para dizer que tenho gostado muito de um programa na Rádio Educadora, a Radioca, que seleciona o set list para os meus momentos no computador e o faz muito bem. Lá eu fico de acordo com James Martins, que chama a indústria de entretenimento de burra por não aproveitar mais a produção latente da MPB. Não, não fomos nós que paramos, foram os espaços que se fecharam, pois a maioria das canções colocadas por Ronei Jorge e Luciano na programação, tocaria em qualquer rádio e não apenas nesta... Quem não puder estar atento às 19h, do domingo, acompanhe pelo site http://www.radioca.com.br/ , como eu faço. Todas as gravações estão disponíveis para o toque.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Botânico






Quando for à feira, nunca aceite as sementes de uma mulher que tem flores costuradas no vestido. Ela vai querer segurar seu punho e colocar cinco sementes no seu bolso. Recuse-as, jogue-as no chão e as pise, se puder. Mas não cogite levá-las para casa, mesmo que a mulher insista e você queira livrar-se logo dela, não vendo mal nenhum em aceitar a sua oferta como quem pega um panfleto na rua. Caso você aceite as sementes, não as plante em seu quintal. Mesmo que já estejam ali no seu bolso e a terra tenha ficado melhor depois do inverno, pronta para florescer o que lhe viesse, e você acredite que lugar de semente é na terra e não no lixo. Mas não, desfaça-se delas. E se você quase em um movimento involuntário abriu um buraco na terra com a ponta do sapato, colocou as sementes e tapou em seguida com a sola, deixe como estar e não regue. De jeito nenhum. Passe com a água em todos os cantos, menos neste exato pedaço. Mas se ainda você regar, por um amor irrefletido sobre todas as formas de vida, por ter visto muito sobre ecologia na TV, anule-se e simplesmente arranque as primeiras folhas que aparecerem. E se você não arrancar e deixar simplesmente as sementes brotarem, acompanhar o crescimento da planta que toma cada vez mais um formato estranho, não apareça mais por seu quintal. Pois já terá nascido a metade de um duende, só com o tronco, os braços e a cabeça que nunca para de ri, na altura de uma mão aberta. Ele bate os dentes uns nos outros o tempo todo para exercitar, move as articulações com um som que assustaria qualquer coração e arremessa punhados de terra em cima das formigas quando se entedia. O duende fica apenas à espera da hora em que você virá cuidar dele. E se você for, meu caro, assobiando uma melodia antiga com a mangueira de borracha na mão, como se a vida não tivesse outra serventia, apenas cubra o tornozelo. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um jornal na Avenida Sete






          Antes Breno Pereira aparecia apenas com uma garrafa de leite e um saco de pão ao cruzar toda a calçada da Av. Sete de Setembro.  Feita uma longa viagem à Europa, adquiridos barba e óculos, a mão vazia passou a sustentar centenas de papéis. A expressão de segredo era a mesma, o cumprimento igualmente discreto, mas em vez de uma passagem rápida por todos, agora pausava frente a cada conhecido ou desconhecido e lhe cedia um exemplar do seu carregamento, o Jornal Redoma.
            Naquela época, a cidade ainda não tinha se desenvolvido: o comércio não almejava mais do que os moradores de cada bairro, os pescadores se contentavam com duas redes de peixe. Mas havia sim muitos acontecimentos. Afinal, o homem é este bicho que saltou estranhamente do ciclo das coisas para a abertura de um mundo particular, por onde pode ser imprevisível, por onde pode inventar. Não era então para estranhezas o fato de existirem dois jornais em circulação naquelas ruas. O terceiro, porém, trouxe consigo todo o espanto: o jornal que Breno Pereira escrevia, editava e distribuía não citava qualquer pessoa, local ou evento conhecido.
            - Morreu um tal de Procópio de Santuário – disse o dono do mercadinho aos fregueses das seis da tarde – É parente de alguém?
            - Só se for do tempo da Bíblia, com um nome desse – respondeu um - Isso aí não é de lugar nenhum não. Nem velório, enterro ou fogueira de osso apareceu.
            - Bem que foi de gente de terra mais pra baixo e o corpo foi sepulto lá – sugeriu outro.
            - Quem tem que ir pro sepulto é esse jornalzinho! – exclamou o mais exaltado – A redação disso daí fica na Rua da Sem-Vergonhice, cruzando com a Avenida Bobageira.
            No fim da segunda semana, uma reunião de moradores foi com a luz da lua cheia bater à porta de Breno. Se as invenções se referissem a pessoas que conheciam, certamente o toque contra a madeira viria de outra madeira, sendo cabos de faca ou de cassetete. Não era o caso, tampouco era para calma. Invenções sobre o inventado podiam não ofender a moral de ninguém, mas ofendiam o brio dos que as liam. Eles se sentiam em participação de alguma brincadeira não entendida, e pior, se sentiam os objetos de graça dessa brincadeira.
            - Meus senhores – disse Breno pela fresta -, vamos conter os ânimos. Decerto, deve haver algum engano.
            - E esse engano vem do seu punho, Seu Nogueira – gritou o marceneiro – É melhor inclusive que o senhor tenha punho pra mais coisa, se não se explicar bem.
            - Venha aqui narrar todos esses escritos, na nossa frente – esbravejou uma mulher – Venha de uma vez!
            Depois de um período de silêncio, a voz de Breno novamente saiu da penumbra para o raio de lua:
            - Sendo assim, eu prefiro que os conterrâneos entrem em vez de que eu saia. Assim não eu, mas os próprios acontecimentos lhe narrarão as suas verdades.
Diante da ausência de respostas, que não significava de modo algum aceitação, Breno abriu por completo a porta. Os moradores, hesitantes, demoraram a obedecer ao chamado do caminho. Quando enfim se decidiram, não havia mais o som dos passos do anfitrião como guia, e sim uma luz branca, diferente de qualquer candeeiro. Antes de o primeiro manifestar que todos seguiam para uma armadilha, a voz de Breno assumiu quase uma ordem:
            - Já tirei o cobertor. Cheguem mais perto.
            Uma senhora imaginou-se em uma manchete, com tarja preta nos olhos, vítima de um grande mal. Um jovem se viu nas páginas de destaque, como um herói, ao salvar os demais da cilada que se envolviam. Um homem mais velho e triste perguntou-se se teria direito a uma nota de falecimento nos jornais. E a garota apenas se aproximava da luz branca, como todos os outros, com pensamentos ou não.
            Sobre a superfície da mesa, uma redoma de vidro, a maior que se poderia ter encontrado até mesmo nos escombros de Atlântida; brilhava por fonte própria como o próprio sol. Em seu interior, grutas e cavernas, florestas e areia, margeavam ruas de asfalto, por onde cruzavam cães e soavam as buzinas pequenos carros. Nos ares, aviões, dinossauros de asas e ônibus espaciais serviam de transporte.  E gente, muita gente, não em plástico, não em madeira, mas em pele e carne, percorria as calçadas. Ao se olhar de longe para as multidões, era difícil distinguir quando se colidiam por acidente, se beijavam ou se deixavam tomar pela tolice.
Breno guardou a mesma mão do leite em um bolso e com a dos jornais estendeu uma lupa repousada na quina. Inclinou-se para redoma e ficou a um fio do seu vidro de lente contra o outro vidro, muito mais delicado. Parou pelo tempo de um fôlego e voltou-se para os moradores, num tom sério:
- Pena. Lucas Bueno, 46 anos, acabou de falecer numa briga de javalis. Elizabeth Andrade lançou em livro o seu relato sobre a Quarta Guerra das Nações e Jorge Valente foi eleito prefeito da aldeia de Santana.
Todos os moradores fixavam o vista a tal ponto que os seus olhos se tornaram pontos de reflexo da luz branca. Exceto por um, que tinha para si outra direção. Era o jovem, que queria ser herói. Com besouros na garganta e o coração em litígios, ele perguntou indignado:
- Então vá circular essa porcaria de jornal entre eles!
Breno Pereira, com as mãos nos bolsos, suspira e vira os olhos para cima. Só com o retorno da vista para a plateia, ele sorri e diz:
- Mas como não...?