Antes Breno Pereira aparecia apenas com
uma garrafa de leite e um saco de pão ao cruzar toda a calçada da Av. Sete de
Setembro. Feita uma longa viagem à
Europa, adquiridos barba e óculos, a mão vazia passou a sustentar centenas de
papéis. A expressão de segredo era a mesma, o cumprimento igualmente discreto,
mas em vez de uma passagem rápida por todos, agora pausava frente a cada
conhecido ou desconhecido e lhe cedia um exemplar do seu carregamento, o Jornal
Redoma.
Naquela
época, a cidade ainda não tinha se desenvolvido: o comércio não almejava mais
do que os moradores de cada bairro, os pescadores se contentavam com duas redes
de peixe. Mas havia sim muitos acontecimentos. Afinal, o homem é este bicho que
saltou estranhamente do ciclo das coisas para a abertura de um mundo
particular, por onde pode ser imprevisível, por onde pode inventar. Não era
então para estranhezas o fato de existirem dois jornais em circulação naquelas
ruas. O terceiro, porém, trouxe consigo todo o espanto: o jornal que Breno
Pereira escrevia, editava e distribuía não citava qualquer pessoa, local ou
evento conhecido.
-
Morreu um tal de Procópio de Santuário – disse o dono do mercadinho aos
fregueses das seis da tarde – É parente de alguém?
-
Só se for do tempo da Bíblia, com um nome desse – respondeu um - Isso aí não é
de lugar nenhum não. Nem velório, enterro ou fogueira de osso apareceu.
-
Bem que foi de gente de terra mais pra baixo e o corpo foi sepulto lá – sugeriu
outro.
-
Quem tem que ir pro sepulto é esse jornalzinho! – exclamou o mais exaltado – A
redação disso daí fica na Rua da Sem-Vergonhice, cruzando com a Avenida
Bobageira.
No
fim da segunda semana, uma reunião de moradores foi com a luz da lua cheia
bater à porta de Breno. Se as invenções se referissem a pessoas que conheciam,
certamente o toque contra a madeira viria de outra madeira, sendo cabos de faca
ou de cassetete. Não era o caso, tampouco era para calma. Invenções sobre o
inventado podiam não ofender a moral de ninguém, mas ofendiam o brio dos que as
liam. Eles se sentiam em participação de alguma brincadeira não entendida, e
pior, se sentiam os objetos de graça dessa brincadeira.
- Meus senhores – disse Breno pela
fresta -, vamos conter os ânimos. Decerto, deve haver algum engano.
-
E esse engano vem do seu punho, Seu Nogueira – gritou o marceneiro – É melhor
inclusive que o senhor tenha punho pra mais coisa, se não se explicar bem.
-
Venha aqui narrar todos esses escritos, na nossa frente – esbravejou uma mulher
– Venha de uma vez!
Depois
de um período de silêncio, a voz de Breno novamente saiu da penumbra para o
raio de lua:
-
Sendo assim, eu prefiro que os conterrâneos entrem em vez de que eu saia. Assim
não eu, mas os próprios acontecimentos lhe narrarão as suas verdades.
Diante da ausência de
respostas, que não significava de modo algum aceitação, Breno abriu por
completo a porta. Os moradores, hesitantes, demoraram a obedecer ao chamado do
caminho. Quando enfim se decidiram, não havia mais o som dos passos do
anfitrião como guia, e sim uma luz branca, diferente de qualquer candeeiro.
Antes de o primeiro manifestar que todos seguiam para uma armadilha, a voz de
Breno assumiu quase uma ordem:
-
Já tirei o cobertor. Cheguem mais perto.
Uma
senhora imaginou-se em uma manchete, com tarja preta nos olhos, vítima de um
grande mal. Um jovem se viu nas páginas de destaque, como um herói, ao salvar
os demais da cilada que se envolviam. Um homem mais velho e triste perguntou-se
se teria direito a uma nota de falecimento nos jornais. E a garota apenas se
aproximava da luz branca, como todos os outros, com pensamentos ou não.
Sobre
a superfície da mesa, uma redoma de vidro, a maior que se poderia ter
encontrado até mesmo nos escombros de Atlântida; brilhava por fonte própria
como o próprio sol. Em seu interior, grutas e cavernas, florestas e areia,
margeavam ruas de asfalto, por onde cruzavam cães e soavam as buzinas pequenos
carros. Nos ares, aviões, dinossauros de asas e ônibus espaciais serviam de
transporte. E gente, muita gente, não em
plástico, não em madeira, mas em pele e carne, percorria as calçadas. Ao se
olhar de longe para as multidões, era difícil distinguir quando se colidiam por
acidente, se beijavam ou se deixavam tomar pela tolice.
Breno guardou a mesma
mão do leite em um bolso e com a dos jornais estendeu uma lupa repousada na
quina. Inclinou-se para redoma e ficou a um fio do seu vidro de lente contra o
outro vidro, muito mais delicado. Parou pelo tempo de um fôlego e voltou-se
para os moradores, num tom sério:
- Pena. Lucas Bueno, 46
anos, acabou de falecer numa briga de javalis. Elizabeth Andrade lançou em
livro o seu relato sobre a Quarta Guerra das Nações e Jorge Valente foi eleito
prefeito da aldeia de Santana.
Todos os moradores
fixavam o vista a tal ponto que os seus olhos se tornaram pontos de reflexo da
luz branca. Exceto por um, que tinha para si outra direção. Era o jovem, que
queria ser herói. Com besouros na garganta e o coração em litígios, ele
perguntou indignado:
- Então vá circular
essa porcaria de jornal entre eles!
Breno Pereira, com as
mãos nos bolsos, suspira e vira os olhos para cima. Só com o retorno da vista
para a plateia, ele sorri e diz:
- Mas como não...?